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Quando o agente de IA vira funcionário: um problema de identidade

By 6 de agosto de 2026No Comments

Por Ramon Ribeiro, Diretor Comercial da Solo Network

Para cada identidade humana cadastrada nos sistemas corporativos existem de 45 a 90 identidades não humanas circulando pelos mesmos ambientes, conforme números apresentados pela IBM no Think 2026. São contas de serviço, chaves de API, tokens de autenticação e, cada vez mais, agentes de IA com acesso a CRMs, ERPs, bancos de dados e caixas de e-mail, autorizados a decidir sem intervenção humana.

A proporção em si não é novidade. O que mudou nos últimos meses é de outra ordem: agentes de IA não são credenciais passivas. Eles raciocinam, planejam, encadeiam ações em dezenas de sistemas e podem pedir novas permissões em tempo de execução. A infraestrutura de gerenciamento de identidade e acesso da maioria das empresas, porém, foi desenhada para um mundo em que apenas pessoas faziam login.

Em pesquisa do IANS Research com CISOs, garantir identidade para um mundo de IA apareceu como a segunda maior prioridade do ano, com nota 4,46 de 5 — atrás somente do uso de IA pelas próprias equipes de segurança. Uma das maiores consultorias globais de tecnologia colocou a adaptação do IAM a agentes de IA entre as seis principais tendências de cibersegurança para 2026, com o alerta de que não resolver isso significará mais incidentes ligados a acesso conforme os agentes autônomos se disseminarem.

A dificuldade é estrutural: os sistemas de IAM em uso partem de premissas que não valem para agentes autônomos. Pessoas entram em horários previsíveis, mantêm sessões de duração limitada, passam por revisões periódicas de acesso e podem ser submetidas a autenticação multifator.

Agentes operam 24 horas por dia, em velocidade de máquina, sem padrão comportamental que sirva de linha de base para detecção de anomalias, e não respondem a um desafio de MFA. A IBM identificou que 92% das empresas não confiam nas próprias ferramentas legadas de IAM para administrar riscos de identidades não humanas e agentes de IA. Não é uma limitação incremental: é incompatibilidade estrutural entre a arquitetura de segurança vigente e a realidade operacional que as empresas estão criando ao adotar agentes.

Proliferação de agentes autônomos

No relatório State of AI in the Enterprise de 2026, a Deloitte registrou crescimento de 50% no acesso de trabalhadores a ferramentas de IA somente em 2025, com apenas uma em cada cinco empresas dispondo de um modelo maduro de governança para supervisionar esse uso. Do lado dos agentes, a proliferação é ainda mais intensa: cada novo agente implantado pode gerar múltiplas identidades derivadas, tokens de acesso e conexões com APIs externas.

Um único agente de atendimento configurado para resolver chamados pode, em operação rotineira, criar centenas de subagentes, cada um com credenciais e escopos próprios. Se um deles passa a emitir reembolsos fora da política ou a consultar dados de clientes sem autorização, a pergunta é simples e costuma ficar sem resposta: quem configurou esse agente, que permissões ele recebeu e quem responde pelo que aconteceu?

Análise da CSA sobre proliferação de tokens, feita em 2026, mostrou que mais de 16% das empresas sequer rastreiam a criação de identidades associadas a agentes de IA — ou seja, o inventário básico não existe.

Credenciais de serviço não são a mesma coisa

Contas de serviço tradicionais cumprem tarefas predefinidas em fluxos determinísticos. Agentes de IA agem de forma probabilística: interpretam contexto, decidem sequências de ação e podem requisitar acesso a recursos que seus criadores não anteciparam. Um whitepaper da Cloud Security Alliance publicado em 2026 descreveu o fenômeno como aquisição autônoma de credenciais em tempo de execução, algo para o qual nenhuma geração anterior de identidades não humanas estava preparada.

A credencial de um agente não é uma chave passiva, é a identidade principal de um ator capaz de encadear ações em múltiplos sistemas com resultados imprevisíveis.

O conceito de Zero Trust, já consolidado para acesso humano, precisa ser estendido de forma nativa a identidades não humanas e a agentes de IA. Isso significa tratar cada agente como entidade de primeira classe no sistema de identidade, com provisionamento dinâmico que cria e retira identidades por tarefa, autorização por política verificada a cada invocação, rastreabilidade completa de cada ação vinculada a uma cadeia de delegação auditável e isolamento de fluxos de trabalho para limitar o raio de impacto em caso de comprometimento.

Parte dos analistas já fala em guardian agents — agentes de supervisão encarregados de monitorar se os demais operam dentro dos limites definidos, funcionando como camada necessária de governança.

Empresas que implantam agentes de IA sem antes resolver a questão de identidade estão erguendo automação sobre alicerces que não foram projetados para sustentá-la. A próxima grande falha de segurança corporativa provavelmente não virá de um invasor externo sofisticado, e sim de um agente com permissões excessivas que ninguém lembra de ter configurado, acessando dados que ninguém autorizou, em um sistema que ninguém sabia estar conectado.

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